Muitos falam que no mundo do futebol existem muitas pessoas falsas, os famosos “traíras”. Embora não discordo desta opinião, tenho a convicção de que no futebol também é onde se adquirem grandes e verdadeiras amizades, algumas por toda a vida. Eu, vivendo há quase vinte anos no futebol, coleciono inúmeros amigos feitos através da bola. Inimigos? Nenhum, pelo menos da minha parte. E uma dessas amizades formadas foi com meu amigo Valnei, pai do Luciano Rezende, um Eterno Sangue Azul, como costumo chamar meus ex-alunos da Associação Sabesp Escola de Futebol. Passamos, em família, o último domingo juntos. Entre conversas aleatórias o que não podia faltar eram as resenhas do futebol e, principalmente, relembrar grandes histórias que vivemos juntos quando o Luciano, hoje com 26 anos, era um adolescente. A maior lembrança foi quando o Luciano foi disputar o Campeonato Paulista Sub-15 pelo Brasilis FC, em Águas de Lindóia-SP. Tudo se iniciou quando estávamos realizando uma grande campanha com o Sub-15 da Associação Sabesp, ao qual fomos campeões de um torneio em Patrocínio Paulista em cima do Monte Azul Paulista. Luciano, que era nosso lateral direito e capitão do time, estava “voando” naquela época, se destacando muito. Mediante grande desempenho, conseguimos uma avaliação no Brasilis, time do Oscar, ex-zagueiro do São Paulo e Seleção Brasileira na década de 80. Levamos ele e mais dois atletas nosso. Eles chegaram numa segunda-feira e ficariam até na quarta.
Chegando na quarta, o técnico dispensou dois dos nossos atletas e pediu para o Luciano ficar até sexta para mais avaliações, mas ele não queria ficar de jeito nenhum. Insistimos muito com ele, Valnei gastou mais de uma hora no telefone tentando convencê-lo. Conseguimos, por bem. Luciano ficou e passou na avaliação, alojando e se integrando ao grupo do Brasilis, jogando todos os jogos da primeira fase como titular. Sua família viajava todo fim de semana para Águas de Lindóia para acompanhá-lo. Uma pena que a equipe não estava tão estruturada para uma competição forte, com muitos problemas na parte ofensiva. Embora eliminada, Luciano ganhou bagagem e acabou conseguindo uma avaliação em Cotia, no São Paulo Futebol Clube. Conseguiu treinar bem, acompanhou o nível dos que já estavam alojados, recebeu elogios, mas não conseguiu o “sim” do São Paulo FC. Mesmo se empenhando bastante após esta experiência, Luciano foi perdendo a vontade de continuar. Por mais que tentávamos algo para ele, o segundo semestre para muitos clubes na época era de ostracismo. E a pressão da idade foi apertando, a ausência de oportunidades foi transformando a cabeça do atleta em uma cabeça de empresário, ao qual, até hoje, Luciano trabalha com o Valnei em sua fábrica de sapatos, crescendo a marca Frontini a cada dia. O futebol é assim, mas não existe frustração quando a gratidão de ter vivenciado momentos assim é maior. E contar e relembrar as aventuras da bola em um domingo em família é uma grande vitória. Seus netos saberão um dia.
